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Música e o Jogo no Jogo da Aprendizagem
Antonio Luiz Ferreira Bahia[1]
Lembro-me,
ainda hoje, das músicas que eram cantadas no jardim de
infância. Para cada atividade tinha uma musiquinha, o som
e o ritmo da obediência eram ditados através da harmonia
e da cadência imposta pelo olhar e pelo gesto da professora.
“Quem
vai chegando ficava atrás, menino educado é assim
que faz” Assim, a fila era formada com um pegando no ombro
do outro para não se perder e, acima de tudo, para a professora
não perder a autoridade.Ninguém discutia nem sequer
imaginava uma outra forma de se deslocar no espaço da escola.
Já estava tudo determinado para garantir a “disciplina”.
E quando a turma chegava era cantada a música do “BOM
DIA” e todos tinham que se abraçar. Era uma festa!
Uma festa organizada para celebrar a obediência. Até
para lanchar cantavam-se 03 músicas: uma para lavar as
mãos, uma para o lanche e, por fim, para arrumar a sacola.
Tinha música para saudar um visitante e para outras situações.
Momentos criados pelos “educadores” para que, ao som
da música, se estabelecesse um comportamento de ajuste
a um modelo de sociedade que determina que as coisas devem ser
como são ou estar como estão e, por isso mesmo,
não cabe lugar a formação consciente de pessoas
que possam modificá-las.
É
comum ver-se nos curso de formação de professores
e nos encontros pedagógicos uma preocupação
exagerada no aprendizado de mais uma música, principalmente
para datas comemorativas pois, desta forma, se comemora cantando
sem ao menos questionar a validade de tal ato. Devido a isto,
as músicas que são produzidas e cantadas na escola
se afastam, cada vez mais, da realidade social, não permitindo
a criança refletir as atividades a serem feitas com e através
do seu corpo.
A
infância é um momento de constantes descobertas e
conhecimentos do corpo, através dos movimentos. Segundo
Diem (1980) ”aprender é fruto da experiência.
Cada progresso no aprendizado é pré-requisito para
a aquisição de novas noções”.
Portanto, se a ação pedagógica limita a troca
de experiência em nome da disciplina, perde-se um universo
de oportunidades de criação e descobertas.
Neste
sentido, Levy (1985) reforça, ainda mais, essa necessidade
de possibilitar descobertas quando refere-se aos primeiros anos
de vida, denominando esta fase como de descobertas do corpo na
exploração do espaço, de explosão
motora e numa inspiração entusiasmada diz: “ninguém
duvida de que o primeiro astronauta, ao por o pé na lua,
tenha conhecido um momento de intensa alegria. Guardadas as devidas
proporções, cada criança vive um momento
semelhante quando conseguir se deslocar sem a ajuda de outra pessoa”.
É
através dos jogos e brincadeiras que a criança começa
a descobrir o mundo, explorando e se relacionando, ela constrói
e socializa o conhecimento, na troca de experiências com
outras crianças,permitindo que tarefas e habilidades possam
ser executadas de maneira independente, ou mesmo com a ajuda dos
colegas caracterizando assim zonas de desenvolvimento proximal,
a partir dessas atividades lúdicas. Tal afirmativa ganha
reforço em Kishimoto (1984) quando afirma que: “Vygotsky
(1988) deixa claro que, nos primeiros anos de vida, a brincadeira
é atividade predominante e constitui fonte de desenvolvimento
ao criar zonas de desenvolvimento proximal. Ao prover uma situação
imaginativa, por meio da atividade livre, a criança desenvolve
a iniciativa, expressa seus desejos e internaliza regras sociais.
E
o jogo na escola de que forma está sendo realizado? Será
que é permitido a criança modificá-lo ou
também, como na música, a seguir padrões
e regras pré-estabelecidas?
A
criança que cria e recria no seu cotidiano junto com o
grupo, ao entrar na escola começa a ver sua rotina totalmente
alterada por um adulto que agora se apropria do seu jogo e começa
a ditar regras, impondo uma nova maneira de se relacionar. Agora,
nada mais é tão natural como antes, tem que seguir
às regras de um jogo que se torna diferente daquele jogo
de rua.
Mas
que jogo é esse que se transforma da rua para a escola?
Será que é o jogo que se transforma ou a maneira
de jogar?
Neste
sentido, Snyders (1988) afirma que : “há muitas alegrias
que não têm necessidade do sistemático –
há formas de cultura que são adquiridas fora da
escola, fora de toda autoformação metódica
e teorizada, que não são o fruto do trabalho, do
esforço, nem de nenhum plano: nascem da experiência
direta da vida, nós a absorvemos sem perceber; vamos em
direção a elas seguindo a inclinação
da curiosidade e dos desejos ...”
Portanto,
quando a escola se apropria do jogo não deve ser para ditar
as regras, mas para fazer que todos possam também se apropriar
dessa cultura que foi construída no dia-a-dia e que, por
certo, reproduziu as injustiças do cotidiano justamente
por ter sido fruto deste ambiente que é retratado na atividade
lúdica, e por isso, impregnado de relações
advindas do senso comum e que devem ser repensados nas escolas
sem violentar a naturalidade da sua criação.
É
na hora do jogo que a criança está construindo o
seu espaço e situando-se no tempo, momento em que se relaciona
com pessoas e objetos, numa constante troca de experiências
com as atividades, construindo conceitos no ato de brincar livremente.
Por isso, cabe ao professor possibilitar situações
que permitam a reflexão do movimento da criança
em relação ao movimento das coisas que a rodeia
e a compreensão das mesmas. Não basta mover-se no
espaço no ritual de gestos prontos e pensados pela escola,
que não retratam a realidade do mundo.
Se
o canto é livre e o jogo também, porque trancá-lo
em artifícios pedagógicos que encaixotam o ato de
brincar?
Entendemos
que cabe ao professor observar as crianças brincando sem
querer tornar-se dirigente deste jogo, deve o mesmo ser também
um brincante e fazer parte da reconstrução, garantindo
a reflexão do cotidiano, abrindo novas cenas para uma escola
que seja capaz de respeitar o jogo de rua, recriar a cada jogada
na construção de um mundo de esperanças e
expectativas projetadas pelo, correr, brincar, pular e pelo faz
de conta, sem predeterminar as ações, estimulando
a consciência das crianças para torná-las
indivíduos cidadãos, educando-os para uma sociedade
mais justa.
O
papel do professor que joga, nesta perspectiva, é entrar
no jogo e permitir que a criança possa sentir, perceber,
analisar e decidir, fazendo de cada jogada um novo desafio, e
de cada desafio uma nova jogada sem perder o sentido do jogo,
pois jogo não pode ser trabalho, senão perde sua
essência.
Portanto,
o jogo de idéias deve ser uma iniciativa do professor jogador,
que fazendo parte do contexto, aponta soluções com
o grupo. Mas, podemos constatar que, ainda hoje, essa interação
se torna difícil, pois como observa Fortuna (2003): “...os
adultos parecem sentir-se ameaçados pelo jogo devido a
sua aleatoriedade e aos novos possíveis que constantemente
abrem. Seu papel no brincar foge à habitual centralização
onipotente e o professor não sabe o que fazer enquanto
os seus alunos brincam...”
A
criança quando brinca vivencia todas as possibilidades
de interagir com o outro, e a escola precisa de um lugar de brincantes
que crescem juntos e fazem do conteúdo uma grande festa,
a festa do acesso ao conhecimento de forma prazerosa.
O
professor, por sua vez, na condução de crianças
que jogam deve observar e interferir de maneira mediadora com
a participação dos componentes do grupo, para assim
caracterizar o jogo como produção cultural da criança
e, deste modo, não submetê-las aos caprichos de regras
pré-determinadas que servem para cultivar a heteronomia[2].
Ao contrário, a educação cabe favorecer o
desenvolvimento de sujeitos autônomos, o que está
intimamente ligado a um ambiente questionador que permita a participação
de todos, no entendimento que as regras do jogo são resultados
de decisões de quem esta jogando e que o jogo tem inicio
e é o meio que determina o seu fim, para isso é
preciso dar voz e voto para solucionar coletivamente os impasses
apresentados pelo jogo.
Cabe
aos educadores, neste momento, repensar o papel das músicas
e dos jogos na educação infantil e séries
iniciais do ensino fundamental e, principalmente, o papel da criança
que sofre a ação das músicas e dos jogos
no cotidiano escolar. Como se vê, a utilização
da música e dos jogos na formação educacional
está em questão, pois com o passar dos anos ainda
se promove à domesticação da criança,
determinando o comportamento sem uma ação crítica
sobre o ato pedagógico. É assim no cotidiano da
escola, bem como nas datas comemorativas. Esses momentos são
de uma total ausência de senso critico, repetindo atos seculares
que contribuem para reproduzir valores que reforçam a visão
de um mundo sem mudanças. É preciso refletir.
Cantando,
criando e recriando jogos antigos mantém-se a alegria na
escola e esta passará a ser sinônimo de conquistas
do conhecimento, de acesso à produção cultural
de um povo, para que não se cultive alegres obedientes
sem autonomia e sim, formadores de uma nova história, um
novo tempo, com evolução cultural de seres pensantes
e críticos.
Portanto,
deixem que as crianças modifiquem e criem a partir do que
for visto e ouvido, sem preocupação com coreografias
ou modelos prontos. Que o jogo e a música possam prestar
serviço às crianças e não as crianças
estarem a serviço das músicas e dos jogos.
BIBLIOGRAFIA
DIEM,
Liselott. Os primeiros anos são decisivos.Ed. Tecnoprint:
Rio de Janeiro, 1980
FORTUNA,
Tânia Ramos. O Jogo escrito. In: Temasem Edcaução
II. Ed Futuro Eventos: (s.l.). 2003
FREITAS,
Lia. A moral na obra de Jean Piaget: um projeto inacabado. Ed.
Cortez: São Paulo, 2003.
KISHIMOTO,
Tisuko Morchida. O jogo e a educação infantil. Ed.
Pioneira: São Paulo, 1994.
LÉVY,
Janine. O despertar para o mundo. Trad. Luiz Cláudio de
Castro e Costa). Livraria Martins Fontes Editora Ltda: São
Paulo, 1985.
NEWMAN,
Fred & HOLZMAN, Lois. Lev Vygotsky Cientista Revolucionário.
Edições Loyola: São Paulo. 2002.
SNYDERS,
Georges. A alegria na escola. Trad. GUZOVITZ, Bertha Halpern &
CAPONERO, Maria Cristina. Ed. Manole: São Paulo, 1988.
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[1]
Professor do Curso de Educação Física da
UFBA e dos cursos de Educação Física e Normal
Superior da UNIME-União Metropolitana de Educação
e Cultura.
[2]
A heteronomia justifica - se a medida em que a norma que dita
à consciência do sujeito se ele deve (ou não
deve) fazer uma determinada ação que provém
de outrem” (FREITAS, p.88)
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