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Segundo Ghiraldelli (92:15) , “A Educação Física brasileira está em ebulição desde o início dos anos 80. Qualquer observador da área pode constatar que em vários estados do país pululam núcleos empenhados na rediscussão de temas que vão desde a redefinição do papel da Educação Física na sociedade brasileira, até questões ligadas às mudanças necessárias ao nível da prática efetiva nas quadras, ginásios e campos” .O que nos aponta para um caminho de superação dos resquícios históricos desta disciplina. Apesar disso, vinte anos após o início desta discussão, cumpre-nos indagar : será que toda produção teórica vinda da academia já se “materializou” nas quadras, ginásios e campos? No bojo desta discussão surgiram muitas propostas. O próprio Ghiraldelli defende uma Educação Física atrelada à Pedagogia crítico-social dos conteúdos, ao mesmo tempo em que aponta o papel do professor como intelectual orgânico. Para ele (92: 52), “Os intelectuais não se desprendem das classes e frações de classe da sociedade, pelo contrário, cada grupo social forja os seus intelectuais. O papel do intelectual desenvolve-se no sentido de organizar, sistematizar, e mesmo elaborar o pensamento do grupo social ao qual está organicamente ligado. Pode-se dizer, de certa forma, que o intelectual atua como “arauto reflexivo”, levando para a sociedade e para o próprio grupo social, um ideário que representa os interesses de tal grupo .Contudo historicamente o papel desse profissional tem se reduzido a produzir suor e promover a contração muscular. Conteúdos da Educação Física ao longo da História Não se pode falar em conteúdos da Educação Física sem que antes passemos pela formação de professores, pois são esses que materializam os conteúdos nas suas salas de aula. No caso da nossa disciplina, a formação de professores navegou por mares agitados ao sabor dos ventos da ideologia dominante, e isso se traduziu imediatamente nas quadras. Será que a postura crítica atual também tem este poder de tradução imediata nas quadras? Vejamos como ocorreu essa aliança ideologia – conteúdo ao logo da história, atrelada à formação de professores. A formação de professores de Educação Física no Brasil no início do século era feita nas escolas militares ( 1909 – A Escola da Força Pública de São Paulo e 1925 – Escola da Marinha . A partir 1939 surgem as escolas de Educação Física de São Paulo e a Escola nacional do Rio de Janeiro, e o curioso é que a exigência para o ingresso nos cursos era que o estudante tivesse, apenas, as series inicias , o que hoje equivale ao ensino fundamental e o curso tinha duração de dois anos. O currículo das escolas de Educação Física era afastado das demais licenciaturas, pois enquanto a disciplina Didática já fazia parte da grade curricular dos outros das demais licenciaturas desde 1930, somente em 1969 os cursos de licenciatura em Educação Física foram contemplados com o ingresso desta disciplina na sua grade curricular. Acontece que no momento do seu ingresso nos cursos de Educação Física a Didática ainda era compreendida como um conjunto de regras que visavam assegurar orientação necessária ao trabalho docente dissociada das questões entre a escola e a sociedade, separando a teoria da prática. Devido a isto, limitava-se na orientação dos futuros professores para que pudessem tecnicamente elaborar planos de acordo com os diversos métodos de ginástica. Métodos estes, importados da Europa que traziam uma carga ideológica que era colocada em prática a partir da reprodução de movimentos que não tinha sentido nem significado para o povo brasileiro , mas interessava as elites, pois o cultivo a obediência passa pela disciplina do corpo. Sendo assim atividade física dos quartéis passou a ser transferida para as escolas.
Caracterizando uma práxis pedagógica alienada(Martins (87)pag 39)situação em que o professor desempenha papel de agente político transmissor, conservando a cultura e congelando as relações sociais veiculando idéias as quais não têm plena consciência, pois executa uma prática que é pensada por ela mesma sem avaliar a sua repercussão social.
E neste mar cada vez mais agitado, a nossa disciplina foi naufragando a cada dia ou mesmo surfando ao sabor de muitas ondas que iam entrando na moda, e por falta de conteúdo o professor pegava uma carona fosse no higienismo , no militarismo, no esporte para todos ou até mesmo na psicomotricidade, falando de percepção de tempo e espaço e se perdendo no tempo histórico e perdendo cada vez mais espaço no campo social, pois o que faltava mesmo era uma reflexão critica acerca da nossa prática.
DOS MOVIMENTOS DO CORPO PARA O CORPO EM MOVIMENTO Como vimos anteriormente, os professores de Educação Física buscaram pressupostos teóricos filosóficos para essa disciplina e o volume de produção de conhecimento nesta área foi maior nos últimos vinte anos do que em toda a sua historia e o avanço qualitativo das discussões foi fantástico mudando consideralvelmente a maneira de pensar o ser humano , que não é mais visto como um monte de músculos que se desloca em um espaço físico como resultado de contrações musculares reforçando uma visão biologizada de mundo. Hoje, temos a clareza que o ser humano deve ser visto como agente de transformação atuando em um espaço social construindo a sua autonomia e senso crítico a medida que sente, percebe, analisa e decide. Não cabe mais a idéia de reduzir o ato pedagógico aos movimentos do corpo limitando a ação social do ser humano aos limites das suas articulações, pois temos que articular um novo modelo de Educação Física, um modelo que ponha o corpo em movimento estabelecendo relações e agindo no mundo. Apesar de toda produção e da tímida mudança do paradigma saúde para educação ainda hoje, esta disciplina continua sem conteúdos definidos limitando-se a reproduzir atividades. Alguma tentativa tem surgido, mas definir conteúdos sem que sejam vivenciados em aula as contradições históricas da disciplina e negar aos alunos a condição de sujeitos deste processo de construção de conhecimento. É comum nos encontros de professores observarmos claramente a diferença entre aqueles que estão ainda em curso e os já formados a muito tempo, um choque entre o velho e o novo, e o que é pior, os já estabelecidos no mercado de trabalho se “armam” de argumentos, afirmando a necessidade de mudar urgentemente a prática pedagógica. Mas o que fazer? Negar o que se vem fazendo? Rasgar os planos? Queimar os livros? São muitas perguntas e muitas respostas também, que irão chocar-se diretamente com os alunos e alunas que são parte integrante desse processo de transformação. Será que os alunos e alunas estão fazendo parte deste processo de construção de uma nova proposta para a Educação Física? Como sair do papel para quadra e recriar a prática? Temos hoje um quadro teórico na Educação física brasileira que aponta caminhos para uma articulação dos movimentos concretos de transformação da nossa sociedade possibilitando a construção de uma pedagogia em movimento valorizando a ação pedagógica num processo de transmissão/ assimilação critica do conhecimento. Podemos afirmar que temos instrumentos no campo acadêmico para superar a dominação a medida em que repensarmos a nossa historia buscando a contextualização das práticas corporais na escola combinando denuncia e anuncio estabelecendo o conflito na busca da aprendizagem significativa existencial. Como sita Oly Pey no seu livro : reflexões sobre a pratica docente “a partir da denuncia dos mecanismos que nos oprimem no aqui e agora, podemos construir , recriar ou produzir a critica da realidade mais ampla e mais distante”. Percebemos que esta afirmação nos possibilita vislumbrar caminhos para uma ruptura entre o vivido e o imaginário para se criar uma aproximação entre o ideal e o real em nossas salas de aula, quadras e ginásios dando significado ao movimento. Ë preciso investigar se todo esse esforço acadêmico na produção do conhecimento já foi assimilado pelos professores que atuam nas escolas de ensino fundamental e de que forma o pensamento vigente na comunidade cientifica se materializa . Pois não basta produzir conhecimento sem que este esteja a serviço da população validando uma afirmação de Guevara “ o papel da universidade é levar o conhecimento ao seio do povo “. Segundo Rosa Sanny :16 “O hiato que separa o ideal da precariedade percebida é o motor que impulsiona a pratica” e a construção de situações que aproximem o vínculo entre o pensar e o atuar é papel de quem assume uma postura de mudança sabendo que o choque é inevitável e necessário para construir a historia de mudanças radicais que possam promover rupturas estruturais na atuação de professores que sejam agentes de transformação . A Educação Física ainda não dispensa um tratamento especial à criança, pois muitas vezes é a formação do atleta no treino de habilidades e perícias o que mais interessa aos professores, e assim, a criança não tem oportunidade de viver intensamente o movimento de forma criativa, percebendo e analisando as situações propostas, porque a ela cabe apenas seguir ordem e ser selecionada por habilidades. Na maioria das vezes um grande grupo fica de fora desse conjunto separado do processo e condenado a ficar à margem da beleza que é atividade física prazerosa devido a um sistema que valoriza apenas a contração muscular. Criança é movimento e por isso os nossos programas devem criar condições para que ela possa viver o mundo através do corpo dando asas a imaginação enquanto que interage com a realidade e passa a interferir no seu destino a partir de decisões coletivas entendendo que as regras do jogo são determinadas pelos seus jogadores e que a atividade lúdica pertence a todos independente de força ou habilidade,, pois não cabe mais nos nossos dias corpo solto no espaço físico apenas contraindo músculos ou molhando camisa de suor, por isso, propomos uma Educação Física onde o tempo histórico e o espaço social sejam conquistados no movimento das idéias no jogo de corpos que buscam autonomia e consciência de que nem todos tem obrigação de ser atleta e sim alcançar a cidadania, tendo acesso a toda manifestação corporal através do corpo, estabelecendo um processo de decisão coletiva onde todos devem legislar as regras do jogo e produzir e socializar o conhecimento a fim de construir um tempo onde não só os fortes e ágeis ocupam espaços. Brincar é o maior bem que a infância possui e através das brincadeiras o mundo infantil conquista espaços e abre horizontes a cada segundo numa constante troca de experiência onde o conhecimento é sempre reelaborado jogada por jogada, estabelecendo a riqueza do prazer de usar o corpo em movimento, conquistando a liberdade. No entanto, o adulto ignorando tudo isso (esquece que foi criança e que um dia brincou, foi soldado, foi herói, pulou, correu, cantou, enfim, foi feliz), tranca a criança na escola e tenta impor uma disciplina que violenta sua natureza, pois o seu espaço é diminuído e aquele corpo que domina os jogos e brincadeiras agora é obrigado a repetir inúmeros exercícios num clima sério e de reprovação para que tudo saia do mesmo jeito que o adulto pretende. Mas, que sociedade é essa que não dá a criança o direito de viver o seu próprio tempo? – Que Educação Física é essa que esquece que a criança é a principal fonte de conhecimento da atividade lúdica e tenta impor um ritmo que nada tem a ver com o seu mundo? Sugiro nas aulas de Educação Física a criança seja sempre criança e ao invés de brincar de adulto, professor e alunos junto possam recriar um novo tempo pois sempre será tempo de sorrir e ser feliz. BIBLIOGRAFIA: BAHIA, Antonio Luiz, ESPÍRITO SANTO, Fernando ,ROCHA, Luiz Carlos. Propostas de Educação Física no Ensino Fundamental no Município de Salvador. In: Escola, arte e alegria: sintonizando o ensino municipal com a vocação do povo de Salvador. Salvador: SMEC, 1999. BORGES, Cecília. O professor de educação física e a construção do saber. São Paulo: Papirus, 1998 COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992 DEMO, Pedro. 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[1] Professor de pratica de ensino no curso de Licenciaturaem Educação Física da UFBA
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