Uma
história de bichos
Esta é uma historia de bichos
que bem poderia ser uma história de gente, e de gente que
forma gente. Trabalhei muitos anos em escola particular e pude
construir esta história com os elementos que somei ao longo
do tempo.
É interessante observar como há uma divisão,
embora velada, entre os professores de diferentes níveis
em uma mesma escola, estratificando-os por graus de importância
que variam de acordo com a série que lecionam, iniciando
pelos “menos importantes” da Educação
Infantil até chegar aos poderosos do 3º ano. Isso
nos faz pensar que esta ordem é perfeitamente natural,
já que cada grupo trabalha em um setor. O fato é
que todos são professores e devem se entender como tal,
embora a escola os separe em ambientes diferentes, intervalos
diferentes e salários bastante diferentes, estabelecendo
uma falsa hierarquia onde cada setor representa um degrau na escala
salarial, dividindo a categoria na sua essência.
Devido a estes fatores as relações ficam divididas
e o professor que trabalha com os menores em idade se sente menor
em competência, uma vez que a remuneração
vai aumentando de acordo com a evolução cognitiva
do aluno até chegar ao 3º ano, cujo corpo docente
é composto por um grupo de professores melhor remunerado
e que por conta da remuneração não participa
do movimento sindical, nem faz greve, reduzindo todas as reivindicações
da categoria à mera questão salarial.
É incrível ver como a história nos prova
isso e como as consciências revolucionárias que mobilizaram
um grande grupo de professores para a luta política tiveram
sua voz calada ao galgar ao 3º ano, criando a fantasia de
que o topo a ser alcançado é receber o salário
do professor da última série, ou seja, o fim de
linha inclusive da politização, da consciência
crítica do professor, é ocupar o tablado de uma
sala de 3º ano. Agora temos professores que falam de consciência
em sala de aula, mas, já não praticam o ato político
junto à sua categoria.
Toda essa ilusão de ascensão nos faz voltar à
história dos bichos, e podemos começar pela do macaco
representando aquele professor que não tem consciência
do seu papel de formador de cidadãos críticos e
participativos na construção de uma sociedade mais
justa. Sim, macacos, pois os macacos fazem tudo para agradar somente
para não perder a banana diária, neste caso, o mísero
salário do dito “professor sacerdote", que enxerga
seus pequenos alunos como vítimas inocentes do sistema,
que não devem ser sacrificados por questões que
não lhes dizem respeito.
Este consenso não existe à toa. É o resultado
de uma persuasão baseada na chantagem emocional cuidadosamente
engendrada pelos sindicatos patronais e colocada em prática
pelos donos dos estabelecimentos de ensino, que põem no
professor a “culpa” diante da possibilidade dos pequenos
ficarem sem aulas.
Felizmente, a ilusão de galgar a escada para o sucesso
que leva às séries do andar de cima, impulsiona
o professor, mesmo que de forma tímida, a se integrar àqueles
que lutam junto aos sindicatos. Essa mudança os transforma
de macacos em leões, lutando agora com toda garra para
garantir o seu salário e não voltar mais para o
“andar de baixo”.
Contudo, os donos desse imenso zoológico sabem que a selva
está repleta de macacos e que os leões podem ser
rapidamente substituídos, dando um poder maior ao patronato,
poder que é reforçado pelos micos-leões,
que ficam em cima do muro com o argumento de que têm cargo
de confiança, como se os outros cargos fossem de desconfiança,
regulando as relações no zoológico com suas
dinâmicas de grupo e textos que reforçam a postura
acrítica, embalando a escola no mar de neutralidade, navegando
como se as ondas da consciência fossem uma calmaria total,
e como se a escola estivesse acima das relações
trabalhistas.
Quem não toma partido, já o fez sem saber, pois
está do lado do poder. Em educação não
tomar partido é negar-se como educador. Como se pode falar
em formar o cidadão se a cidadania não é
exercida na sua plenitude? Será que é possível
formar para a cidadania sem formar pela cidadania? Ou será
que os projetos com suas culminâncias mirabolantes, caracterizando
a pedagogia da apoteose, conseguem formar seres críticos
e participativos?
Como falar em participação e solidariedade se o
discurso é negado no momento em que a consciência
de classe é colocada à prova? São muitas
perguntas que a história se incumbe de responder nas assembléias
vazias e nas relações artificiais entre os diversos
setores da escola.
Fala-se em educação integral enquanto a escola é
fragmentada não só no seu conteúdo como também
na corrida pelo salário e no tráfico de interesses
entre pessoas que ocupam cargos de coordenadores e supervisores,
que falam em educar, mas, muitas vezes, não se consideram
professores, escondendo-se atrás do titulo de corpo técnico.
Há também os camaleões, aqueles criados sob
a doutrina da função romântica do educador
que coloca a vocação acima de tudo, assumindo um
compromisso quase que familiar com os patrões por serem
considerados sacerdotes do ensino, direcionando a pratica pedagógica
apenas para o saber elaborado, outorgando à escola uma
força capaz de, isoladamente, resolver os problemas sociais.
Estes mimetizam instantaneamente em momentos de greve, buscando
defender-se da predação e esconder-se nas mais variadas
formas, incorporando-se ao ambiente que proteja a integridade
do seu cargo.
Evidente que é grande o choque entre leões e camaleões,
uma vez que aqueles se reconhecem como profissionais da educação
e assumem o papel de trabalhadores com a plena consciência
de que estão vendendo a sua força de trabalho e
que precisam lutar por melhores condições não
só no seu local de atuação como também
em outros espaços, pois sabem que não pertencem
ao estabelecimento que temporariamente os contrata, bem como que
a melhoria da sua qualidade de vida irá influenciar diretamente
na melhoria da qualidade do ensino. Estes, por sua vez, assumem
um corpo amorfo, ora camurflado em corpo técnico, ora em
companheiro de classe, buscando garantir a sua sobrevivência,
em eterna crise de identidade.
Todo esse zoológico tende a evoluir para o bicho da goiaba,
que penetra de maneira lenta e gradual e vai crescendo na medida
em que amplia o seu espaço e forma consciências dentro
e fora de sala de aula, contando a história com o seu próprio
sacrifício, entrando na luta contra o inseticida patronal,
que acaba com ele, mas não consegue derrubar suas idéias
que agora já contaminam macacos, leões, micos-leões
e até camaleões que, no dia-a-dia da educação
política vão se transformando em bichos da goiaba
e, cada um a seu modo, começam a atuar na perspectiva da
transformação das relações de trabalho.
Nos últimos anos tenho visto o passeio incessante desses
bichos pelos corredores da escola, e com muita alegria posso afirmar
que existe um imenso ninho de bichos da goiaba espalhado pelas
escolas de educação infantil e ensino fundamental,
com um apetite que aumenta a cada dia e, através da tomada
de consciência política, começa a transformar
as relações nessa floresta de contradições
que é a nossa categoria.
Esta é uma história de gente que sabe que “bicho
vai dar amanhã” e está apostando nesta transformação.
|